terça-feira, 1 de novembro de 2011

Fechem as portas


Correu para a rua deixando a porta aberta. Já não era só tristeza.
O suor revelava uma testa brilhante de antigas ideias. Andava rapidamente com súbitas corridas, alguém o espera ou à espera de alguém? Já não era só aflição.
A verdade o dominava, a mesma que um dia foi mentira e outrora fábula. Sabia o que queria e no olhar abraçava todos à sua frente, sem retorno, sem relaxar as pálpebras. Já não era só medo.
Abrir mão de uma vida previamente ensinada exige muito dos dedos. Dedos que indicam, apontam, sinalizam caminhos. Já não era só procura.
Sem mais, encontrou-se no gramado em meio a cidade. Naquele instante percebeu-se único e talvez merecedor de uma felicidade qualquer, mesmo sem saber fechar a porta. Era só esperança, já não é mais.

(José Avelino)

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Nada mais que tudo


O excesso atraiu a carência do pouco

que de cara da cara gostou, mas

percebeu nos olhos muito

menos daquilo que um

dia considerou

tudo
.
.
.

(José Avelino)

domingo, 16 de outubro de 2011

Temporalidades


Sono brusco, atentador. Nas mãos, o velho lápis insistente adentra a madrugada assim, sem pressa, como quisera falar para o papel o quão difícil é a relação entre os dois. Risco, rabisco, arrisco uma palavra: Tempo.


Lamento,
não fiz
o tempo
ser mestre do vento
que soprou, soprou, soprou e

à tempo







derrubou
o que restara
[por dentro]

(José Avelino)

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Insônia


Despertador, acordar
Sonho bom
Travesseiro, lençol, calor
5 minutos
Despertador, acordar, atraso
Chão, sandália, toalha, banho, xixi, espelho, derrota, roupa
Fome, café, pão, mastigar, margarina, colher
Mochila, chave, dinheiro, corrida, ônibus, poltrona
janela, paisagem, viagem, desejos, estrada
caminho, caminho, caminho
Saudades de uma possível coesão. Conectivos, pontes, mãos dadas.
O despertador pede um bocejo, faltou açucar no café frio sem afeto.
Uma corrida juntos?
Poltrona 15 e 16 para viajar num horizonte além da janela.
Caminhos cruzados
Eu apenas queria acordar sem vontade de voltar ao sonho.

(José Avelino)

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Rascunhos # 2

Mais uma vez tentou ponderar o que sentira.
Criou regras, demarcou limites, protegeu-se.
Cansou de entoar cânticos românticos aos ventos, nem sempre eles sopram ao seu favor.
Seria algo à se pensar, à esperar?
Seria
Queria
Passado de esperança. Apressou o passo para um presente órfão de futuro.
Conseguirá?
Espero que não espere resposta.

(José Avelino)

terça-feira, 19 de julho de 2011

Sensatez para Macabéa


Louca, formidavelmente louca...
Prestes à descer do salto de lucidez trêmula pensou consigo mesma: Por que não perder o juízo? Jogá-lo aos leões e rir da sua desgraça?

Foi assim que roubara o primeiro beijo.

Acostumado à pequenas infrações, ele aceitou o ato e com atitude beijou-a, lambusou-se de saliva felina. Assim, logo após o delito ousou perguntar o nome daquela em sua frente.
O silêncio cativou.

(José Avelino)

domingo, 17 de julho de 2011

"Eu não sei dizer"...


Desisti de ouvir o quão difícil é falar
Calar- me -ei
...
...

Mesmo que a mudez me destrua, sua retórica sempre tocará meus lábios
Ouvirei seus pensamentos apenas com o sabor sonoro da voz macia
Desvendarei as respostas me desfazendo dos sentidos

O que fará quando a fala desistir de ti?
E se?

Pousará as mãos em teus olhos para respirar o cheiro da loucura restante em mim
E por fim
Se alocará em meus sonhos
Onde perderá a cabeça
E minha cabeça perderá o teu juízo.

(José Avelino)