terça-feira, 12 de junho de 2012

Arado




éramos quase
completude
(des)esperança  
éramos
presente
na frente
momentâneo passaredo
como tudo
contudo
éramos
tudo
em mãos


enfim
no fim
éramos água
entre dedos
gotejada
ao chão


éramos
chão
terra 
arada
aerada
à espera 
sementes?
não somos
seríamos
éramos

(José Avelino)

 


quarta-feira, 23 de maio de 2012

Sabe?

Estou falando do improvável, da possibilidade, de algo que a existência dependerá de fatores, atores e conjunturas. Falo do inconcreto, da expectativa, do desejo pela satisfação, da falta, pela falta e por faltar, sempre.

saudade
sem
sentido
sentirei
sempre
se
seu
sorriso
soar
solto

Por aí

Sem
saber
se
sou
sua
saudade
semelhante

(José Avelino)




sexta-feira, 30 de março de 2012

Alegoria para Helena


Uma língua despindo as palavras açoitou a boca e fez dos lábios opostos refúgio protegido por mordidas salientes, selantes, salivantes...

Ela sonhou mais uma vez.
E desejou a vida como desejava a língua que sonhara: Despudorada, sem receio de cativar o que lhe interessava.
Mas era sonho, repetitivo e inquietante.
Acordava em um corpo alheio, desatenta ao chão que costumava pisar.
Esquecera do seu nome, nome dado e batizado pela tradição católica apostólica romana.
Acordar tornou-se um ato de regressão. Fardo sustentado todo santo dia, todo dia de santo.
Mas se ela fosse ela? E se o futuro guardasse surpresas avassaladoras?
Abria a geladeira sem esperança de banquete. Suco da noite anterior, bebia o passado com gosto, lambuzava-se disso.
Ela?
Mulher independente, dona do próprio nariz, cabelos, pernas.
Saía para o trabalho com sensações comuns, preocupações comuns, normalizada, normatizada, numa alegoria descomunal.
Cativante.
Sentia que poderia ser mais, mas ser é algo tão difícil, vai além da redoma, ficaria desprotegida.
Melhor sonhar, assimilar o papel e ser intérprete de si.
É.
Mas a língua insiste.
E a vida também.

(José Avelino)

domingo, 11 de março de 2012

É grave doutor?


Quem sofre de viver sempre acha açoites para afastar de si a falsa patologia. É na autoflagelação cotidiana que se evidencia na pele marcas de uma expectativa obvia: Sentir o inesperado tão esperado.
Acha-se então que a qualquer momento sentimentos inesperados aparecerão e abraçarão esse corpo flagelado de pouco viver. Como se aparentemente tudo estivesse no ar, como fuligem de fumaça que gruda aos poucos nas paredes dos prédios. Dá uma vontade imensa de aprisionar todo ar nos pulmões afim de filtrar-lo para, quem sabe, impregnar algo de bom nos alvéolos.
Mas cansa respirar isso tudo.
E quando se pensava que viver era a causa de tanta angústia, o diagnóstico aponta para problemas no sistema respiratório.

(José Avelino)

sábado, 25 de fevereiro de 2012

In loco


Aquilo
se resume no que sinto
transeunte daquilo que chamam por aí de alma
encarnado naquilo que os olhos enxergam
concreto na paisagem humana
desenhado em rostos que vão além
em meio a multidão que acolhe o medo
CONSUMIDOR
do que chamam por aí de alma
e se resume no que hoje sinto
encarnado nos meus olhos
que enxergam além da paisagem
daquele rosto desenhado
em meio a multidão.

(José Avelino)

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Transbordamento


Quando somos copo dágua a tolerância é facilmente abraçada. Estamos sujeitos a paciência sem nos atentar para o quanto podemos suportar. Pensamos em litros e não percebemos que a medida real é mililitros. Copo americano, entendem? Em 250ml muitas gotas são reservadas adequadamente, sem desespero, entretanto, somos esse pouco com mania de grandeza, mania de poço. Aos demais, aparentamos poços profundos com água límpida capaz de saciar tudo, inclusive a sede. No introspecto, sabotamo-nos diariamente pelos lábios que nos bebem à demasia. Contudo, o vazio não é sentido, ele inexiste pela sede que sempre permitirá a última gota, a gota dágua. E daí transbordamos.
Ainda não estou cheio.

(José Avelino)

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

"A mão que afaga é a mesma que apedreja"


Primeiro escrito em parceria com minha amiga/irmã Lídia Gabriela. Que venham mais, sem pressa, sem tempo, pra ontem. Ao som de Cazuza e embalados pelas palavras de Augusto dos Anjos.

Ontem e amanhã se misturaram na estranha dúvida:
És partida ou chegada?
Tantas ídas, tantas voltas e do hoje não saímos.

Na véspera os pensamentos precederam torturas
tonturas, loucuras de um coração à partir.
Partindo por algo à menos.

O que procuras?
O ontem ou o amanhã?
Quero apenas o hoje só pela vontade de negar a possibilidade do amanhã
e a saudade do ontem

Quero apenas o hoje
Com gosto de fruta mordida
Quero apenas o hoje
Por hoje
Pra ontem

(José Avelino/Lídia Gabriela)